Um bolo, um novo ano, um cigarro mentolado – Fal Azevedo

Um brinde com Kir Royal
1 de janeiro de 2013
Velho Madalosso – Tradição e Fartura
3 de janeiro de 2013
Mostrar todos

Começar 2013 com crônica novinha da Fal Azevedo é um presente para todos os leitores do OBA! Com receitinha, vira festa. Fal, como sempre fantástica!

Cacho de uva

Ia começar o texto dizendo que minha mãe, a Maliu, é dos seres humanos mais sábios do mundo. E que estou de ressaca. E, ainda assim, graças aos poderes curativos da minha boa mãe, já arrumei um gaveteiro e traduzi dois capítulos do livro novo e não são nem cinco horas da tarde. É muita informação, zero de explicação, sei disso muito bem, peço desculpas aos leitores, mas acontece que estou confusa. Porque, bom, estou de ressaca.

Tudo bem, confesso. Tenho 42 anos, sou uma viúva chata e lamurienta e com praticamente zero de vida social. Mas de quando em vez, saio para jantar com meu amigo e bebo e faço coisas que me expulsariam do clube das viúvas, caso instituição tão honrada e séria existisse. E ontem, véspera de ano bom, sai com meu amigo e bebi uma quantidade alarmante de vinho, vodca e um treco cor-de-rosa com gosto de xarope (oi pessoal da Polícia Federal, da Delegacia de Entorpecentes e da Liga das Senhouras de Santana: não era xarope. Era algo inofensivo, certeza, meu amigo não mexe com substâncias ilícitas. Bom, tenho quase certeza de que não era xarope. Quer dizer, se xarope fosse, Meritíssimo, tenho certeza que meu amigo tinha receita). Bebi meia-de-seda também, mas puxa, não tomava meia-de-seda desde a minha festa de 15 anos, que foi uma catástrofe e um pavor, um turning point horrendo. Pensando bem, foi a noite em que comecei a beber pra valer. As peças da minha vida vão se encaixando lentamente.

Bom, mas vamos em frente, leitor. Saí, bebi, tive uma crise de riso de quatro horas. Chamei o maitre de ‘meu querido’ e me envergonho muito disso. Fui dormir bêbada, sensação maravilhosa e dormi como um coelhinho bebê que estivesse dormindo no mesmo ninho que o ursinho do comercial de amaciante, dois dos gatos da Stella Cavalcanti (telinha.blogspot.com.br), um cobertorzinho felpudo e um travesseiro em formato de carneirinho. Acordei me sentindo dentro do trato digestivo de um camelo velho e rabugento que jantou guisado de coiote, mas não quero falar sobre isso, porque quando cheguei em casa Maliu estava assando bolo de uva. Senti o cheiro do bolo antes mesmo de entrar em casa, enquanto meu bom amigo destrancava o Portão do Lobisomem (alguém um dia me cobre explicação do motivo deu chamar o portão da casa da minha mãe de Portão do Lobisomem), porque eu não acertava a fechadura. Pois é.

Entramos na sala e… Meus melhores sonhos se confirmaram, era bolo de uva o que crescia no forno. Evidentemente, me taquei no sofá e fiz ruídos quase humanos enquanto as pessoas em volta de mim tinham uma conversa civilizada, diria mesmo polida, sobre o ano bom, as expectativas todas, o nível dos restaurantes de São Paulo (enquanto minha mãe esbravejava sobre ninguém ninguém ninguém neste planeta saber ferver macarrão _ ela está certa, é claro), sobre… sério, não sei. O bolo ficou pronto e ela tirou a criatura do forno para ‘esfriar’, a coisa que mais me enerva no mundo.

Lá pelas tantas, tendo o que quero registrar como uma experiência extracorpórea (a Cynthia acordou a tempo de me explicar como soletra extracorpóreo no que ela chama com muita graça de ‘deforma ortográfica’), ergui essa carcaça adiposa e miserável do sofá e fui para a cozinha fazer café e abanar os braços em volta do balcão, na esperança de que catimbando, o bolo esfriasse mais rápido. Deu resultado, o que significa que preciso arrumar uma religião em 2013.

Maliu desenformou o danado e eu comi o Bolo Mais Perfeito Evah. Aquela coisinha linda e macia. Docinha, dourada por fora, cor de uva (rará) por dentro. Bebi café com leite, tomei quantidade não concebível de aspirinas e gemi. Enquanto comíamos, Maliu deu uma longa explicação de porque devemos comer açúcar enquanto estamos de ressaca, mas juro, não ouvi. Há pouco, a dra. Carina Rizzi me explicou que uma das razões da ressaca é hipoglicemia, e que o consumo de glicose ajuda a melhorar a intoxicação. Ela ainda disse há estudos que indicam que óleo também ajuda, o que quer dizer que da próxima vez, vou comer um omelete antes do bolo. No final, ela me chamou de bêbada, não sem certa razão, mas cortei relações mesmo assim.

Meu amigo, cuja religião deve adorar Baal e defender o estripamento periódico de cágados e cegonhas para leitura do futuro, tacou requeijão no bolo coisa que achei demonstração de má fé, falta de juízo e loucura completa. Ninguém é perfeito neste mundo.

De repente a vida estava de volta ao meu combalido corpo, e eu conseguia dizer palavras em três idiomas vivos e um infelizmente já falecido, aliás, frases completas, um assombro de sintaxe. Entendi pra que serve bolo de uva e porque minha mãe é este ser sábio e catito. A ressaca não sumiu magicamente, mas voltei a ser um ser humano, ainda que com dor de cabeça, deixando de ser aquela massa amorfa e gemebunda de outrora.

Começo 2013 com a fé renovada no fermento de latinha, nas uvas da barraca do japonês da feira dos sábado na avenida Santa Catarina, nos poderes curativos da farinha de trigo, no absurdo talento da minha boa mãe de transformar coisas banais em coisas maravilhosas e de realmente se esforçar para me civilizar, ser  idiota e sem talentos que sou e neste drinque maravilhoso e refinado, o subestimado meia-de-seda, onde tudo, de certa forma, começou.

Que não nos falte uva vermelha, amém.

 

*** E também aproveito o comecinho de 2013 para dizer ao chef Orlando Baumel que não existe alegria maior do que ser parte da equipe do OBA! Não importa para quantos lugares eu escreva chef, se é que algum lugar inda vai me querer na vida, não importa (bem, importa, mas não vamos falar sobre isso) quão relapsa sou (e nem o fato deu adorar escrever ‘quão’ de você me deixar fazer isso aqui), pertencer ao OBA! é motivo de orgulho, de alegria e de gratidão, todos os dias dos anos que se passaram, todos os dias de 2013.

 

Segue a receita.

Bolo com uva da Maliu

Primeiro minha mãe me deu bronca por chamar de bolo de uva, porque é bolo com uva.

Depois, ela me xingou por ficar falando do bolo, porque é uma receita comum, que vergonha, do jeito que você fala parece um negócio muito especial, você é louca, será que você está com febre, não faça mais isso, sua testa está quente, você está febril, sim.

Depois Maliu ficou fula da vida comigo porque ela cozinha de ouvido e não tem receita escrita de nada e ai-meu-deus-como-vamos-escrever-a-receita-no-site-do-chef-Orlando-que-é-tão-fino?

Depois de muito drama italiano de cinema mudo, mas com som, segue a receita. Espero, leitor do OBA!, que você reconheça como eu sofro por você.

 

Ingredientes

Um cacho médio de uvas vermelhas, bem lindo, não muito grande. Já existe uva sem caroço pros fraldinhas não ficarem de mimimi.

½ quilo de farinha de trigo peneirada

350 g. de açúcar

Um copo de água

Três ovos grandes

Duas colheres de sopa saradas de manteiga e mais manteiga para untar. Coragem, meu filho.

Uma colher de chá de essência de baunilha

Uma colher de sopa de fermento em pó

Como a Maliu faz:

Maliu bota nosso forno para pré-aquecer a 180º.

Depois, minha mãe lava o cacho de uva direitinho sem desfazer. Daí, coloca numa peneira para escorrer. Quando a água escorreu bem muito, minha mãe coloca os cachos sobre um prato coberto de papel toalha e vai girando o cacho e trocando o papel toalha de pouco em pouco para ter certeza de que cada uvinha e pedacinho do cabo secou bem.

O segundo passo é untar uma forma com manteiga e açúcar. Maliu pede que você se lembre de que a forma tem que ser alta, bem altinha mesmo.

Depois, ela bate as claras em neve muito duras e reserva. Em seguida, noutra tigela, Maliu bate as três gemas com o açúcar e a essência. Aí acrescenta a manteiga e, em seguida, a farinha de trigo peneirada acrescentando a água. Tudo batidinho, daí sim ela coloca o fermento e mistura, para depois juntar as claras em neve com delicadeza, muita, muita delicadeza.

Em seguida, Maliu coloca o cacho inteirinho na forma untada. Inteirinhos. Ai credo, com cabinho? Você deixe de ser fresco.

Depois que o cacho está na caminha, Maliu vai derramando a massa até que ele fique bem cobertinho.

No nosso querido forno pré-aquecido a 180º, ela enfia a forma e aumenta a temperatura para 220º por quinze minutos. Em seguida, Maliu diminui a temperatura para 150º por mais ou menos 25 minutos. E ela sempre sempre sempre experimenta a massa com um palito. Gente, forno, maionese e jeito de tratar o marido é cousa muito pessoal. Não me peçam conselhos sobre isso, cada um tem que conhecer o seu.

Maliu pede para lembrar que tudo, manteiga, ovos e as uvas, deve ser usado em temperatura ambiente. Sempre.

E que a forma tem que ser alta, mas não muito ancha (o vocabulário de Maliu é sensacional), porque as uvas vão ‘soltar uma aguinha’ que vai se imiscuir (tou dizendo) à massa. E que ela não escreve receita e que ela faz esse bolo há mais de 40 anos e que pede desculpas por não ser tão exata quanto deveria e que se alguma coisa der errado, a culpa é minha. Rarará, eu sabia.

 

Antes de dormir, fumei um mentolado encostada na janela, olhando pruma Lua que não era minha, grata, simplesmente. Foram cinco anos horrendos, mas um pouco menos horrendos porque descobri minha vocação e pude viver dela. Modestamente, como deve ser (podia ser um pouco, um pouquinho só, menos apertado e inseguro, mas tudo bem). E por umas tantas pessoas. Odeio citar nomes porque sempre esqueço dalguém fundamental, mas você, você e você, sabem, não sabem? Sabem.

 

Conheçam o Drops da Fal!

Print Friendly, PDF & Email
Orlando Baumel
Orlando Baumel
Chef de Cozinha, músico e sócio do site junto com a Carol. Casado, pai de 3 lindas garotas.

9 Comentários

  1. Ai, fal, cada texto que você escreve, eu tenho vontade de dizer que é dos seus melhores textos ever. Diz pra Maliu que eu amoela, assim cacofônicamente? Isso não devia ter acento, né? Mas eu ponho. Como sou preguiçosa e incompetente, provavelmente não farei o bolo, mas se algum dia Maliu fizer um e eu tiver a honra de comer uma fatia, fa-lo-ei de joelhos, pode avisar. Beijos

  2. Paula Alvarez disse:

    hahahaha me diverti tanto, fiquei imaginando, e criando as cenas na minha cabeça, e sentindo a ressaca com você! hahahaha Bom demais o seu texto, e parece que a sua virada de ano também!!!!! Um ótimo 2013!!!
    E que receita boa hein?! Nunca comi um bolo COM uva hehehehe

    beijãozão*

  3. Alana disse:

    Adorei o texto, o humor, a receita e a Fal.

  4. Anne disse:

    Estou de cama por causa de gripe, com muito dó de mim, me acabando de rir com esse texto e xingando muito por não ter uva pra fazer esse bolo! Amo-lhe Fal, desde sempre querida!

  5. nelson disse:

    vai escrever bem assim lá na… no… no trato digestivo de um camelo velho e rabugento…

    []’s

  6. Nicole Grosso disse:

    Querida Fal, o meu ano ja começou a melhorar agora que li este seu texto tão delicioso (em todos os sentidos)!
    Obrigada a você e à sua mãe! Pode ter certeza que vou tentar fazer o bolo – vamos ver o que dá!!
    Um grande beijo e que 2013 só te traga coisas boas!!!

  7. Luciana disse:

    Fal, você…existe???

  8. marisa foureaux disse:

    Que texto incrível! Adorei. Prazer em “conhecê-la” Fal. Rí de me acabar e salivei até com o Bolo Com Uva.
    Fazer? Com certeza. Espero que fique lindo e gostoso como descreveu.
    Grande abraço.
    Marisa

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

%d blogueiros gostam disto: