Três dias depois que meu primogênito nasceu, em Agosto de 2005, mudei para um sítio, à 20 km de Araucária. Arrendamos a chácara de uma família polonesa e aprendi a ser mãe e amar o inverno ao mesmo tempo. Cresci muito desde então. Era uma casinha branca, com portas e janelas azuis, e uma árvore enorme na frente. O potrero contava com umas 30 araucárias, e o campo de futebol logo ganhou uma estufa para o cultivo de flores. O silêncio do campo era quase todo abafado pelo choro do meu filho e pelo maquinário pesado que era usado na plantação de milho e batatas dos vizinhos. Ali entendi a tragédia do agrotóxico, quando percebi que cada agricultor cultivava a comida de sua família separada da plantação comercial e quando os via adoecer. Nos recusamos a plantar de forma que não fosse natural e logo no começo éramos taxados de loucos. Enquanto isso, meu bebê crescia, foi um bom tempo, com cólicas e noites na cadeira de balanço ao lado do fogão à lenha, encarando aqueles olhinhos brilhantes que estalavam como a madeira no fogo. O silêncio acontecia nas manhãs, que eram frias e espessas, quando conseguíamos por fim dormir. Comecei a amar café bem forte, e lembrava dos meus avós contando que comiam virado de feijão logo cedinho, antes de ir pra roça em outro canto do Paraná. Naqueles dias descobri porque faziam isso. O fogão à lenha ficava na cozinha. Até então, só tinha visto fogão do lado de fora e nunca tinha precisado lidar com ele, que era, apenas uma peça do meu jogo da memória pessoal, e sempre aparecera comandado por outras pessoas. 

Hoje, a temperatura caiu, nada parecido com aquele ar gelado de pinheiral, mas alguma coisa me fez voltar àqueles dias. A alma às vezes visita o que ficou pra trás, nos abre os olhos, mesmo que com atraso, pras coisas como são, e nos faz entender outras tantas que não foram. Nos fins de tarde, o sítio ficava todo enfeitado com os pavões que fugiam do pesque e pague do seu Silvestre, um vizinho hospitaleiro e engraçado que tentava nos convencer a criar javalis. Eram tantas e me são tão preciosas as pessoas que construíram minha narrativa daqueles dias. Tinha a D. Eulália, que cultivava sozinha, numa quadra do mini centro de Contenda, os orgânicos mais saborosos da região. Nunca vou esquecer das mãos, da voz e do jeito de colona, do qual ela tanto se orgulhava. Tampouco esquecerei do arroz de beterraba que ela preparava. Na venda, tinha a D. Rose, que nos colocava a par das notícias da região. Era uma delícia chegar nos lugares com meu branquelinho e ver a festa que fazia com todo mundo. Tinha a Ouro Branco, uma das fazendas mais lindas que conheci, perto de onde comprávamos o vinho. Passar pelos seus campos dourados era saber que metade do caminho tinha ficado pra trás. Independente dos lugares de partida e chegada, ela era meu ponto de referência emocional. Nada no mundo foi tão acolhedor quanto fechar os dias com as sopas e caldos naquele inverno. Quando descobri a páprica defumada, os pimentos assados e fazia molho de tomate sem parar, para não desperdiçar os tomates orgânicos que colhíamos. Um dia, o bisavô veio nos ensinar a fazer salame, noutro cismou que tinha que nos ensinar a pescar. Acho que nossa realidade era um pedaço do sonho dele. Devo ter aprendido, não parei de pescar lembranças desde que essa crônica começou. Ou estou fechando um ciclo, ou tentando validar a sopa em pleno verão! 

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