A palavra é um gosto, um sabor para além do paladar. E o gosto é um étimo, um princípio, uma espécie de preexistência na nossa memória universal. Perco um bom tempo pensando nessa cumplicidade entre o gosto, que receoso de limitar o prazer sentido a si mesmo, tomou a palavra para perpetuar a espécie, e a palavra, que amorosa e um tantinho atrevida criou desdobramentos, lendas, histórias e os grandes banquetes para expandir a sensação do gosto. 

A palavra é o jeito que o gosto achou de existir entre tantos, de se fazer presente, de mostrar o que só pode ser sentido. A palavra é um convite a experimentação. 

Famílias inteiras são conhecidas por seus sobrenomes e sabores. O mundo todo é um nome dado e um nome sentido, saboreado. 

É impossível saber das pessoas sem saber dos seus hábitos alimentares, dos seus gostos pessoais, e isso voa, alcança caminhos espaciais e seu avesso, a ancestralidade. 

Onde estamos e para onde vamos, só é uma questão possível porque viemos de algum lugar, mas principalmente, porque gostos e (des)gostos são perpetuados por palavras. 

Em maior ou menor grau o gostar, apresenta sabores diferentes, às vezes muito sutis e delicados, mais próximos a um paladar que ao outro, e não raro divide com a palavra a existência. 

Água, trigo, gordura, sal, açúcar e fermento, sovados à quatro mãos, num domingo chuvoso e calmo, resultam num bolinho amoroso. 

Pode chegar Março, com suas chuvas e com o aconchego das cores e sabores de outono. Agora eu acho que o ano começa pra valer! 

  • Nota: Os números e medidas não nasceram por aqui ainda, e as massas, sobretudo, são feitas intuitivamente. 

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