Há seis dias, no cafė da manhã penso sobre o que vou escrever. Eu que odiava rotinas, agora celebro esse tempo de amadurecer um texto . Nunca sei o que vai ser amanhã, mas, as primeiras palavras digitadas nunca são apagadas. Um tipo de mania ou um jeito de capturar uma intuição. Uma preocupação, em acertar, fazer um texto fluído e saboroso que vocês gostem de ler. Cozinhar se trata disso, não? E trata de tantas outras coisas! Há alguns anos conheci um casal muito hospitaleiro em Tagaçaba, nessa mesma época do ano. Parei no sítio deles para pedir informações e acabei à mesa de refeições. Os dois já eram bem velhinhos e cuidavam sozinhos do sítio. Ele era cego. Adorava ouvir rádio na varanda. Ela, era primeiro enérgica, depois doce. O ambiente rural é um velho conhecido, o sítio tinha a paz misturada ao mato que aqui no litoral, úmido e quente, não para de crescer e uns mosquitos muito incômodos, mesmo para mim que prevenida tinha o corpo quase todo coberto. Com aquela hospitalidade que derruba nossas reservas ela me convidou para um refresco longe dos mosquitos eu acabei ficando para o almoço. Sei que parece estranho, ir entrando, aceitando o acolhimento de quem nunca vi, mas era tão sincero e genuíno. Foi a melhor refeição que eu fiz na vida! Arroz, feijão temperado com esmero, frango na panela de ferro, farinha, salada e ovo frito. A senhorinha, bem falante a essa altura, posicionou uma cadeira ao lado da janela para que eu não sofresse com o calor do fogão à lenha e enquanto preparava o almoço, ia contando da vida e de como cultivar e criar era importante para o resultado final. Eu nunca tive dúvidas disso, cozinhar é também cultivar e criar. Eu nunca mais os vi, mas eles cultivaram e criaram em mim uma vontade imensa de contar sempre essa história. De como um almoço feito com vontade de agradar e capricho deixa esse gosto bom na memória e no coração. 

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