Chateau de Chambord

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A França de Tereza Ratts.

Tereza Ratts nos leva em mais uma viagem mágica pela França.

Château de Chambord, um exagero de inspiração e composição.

O Rei François I, protetor de artistas e escritores (e ele próprio poeta), reformou a burocracia do Estado, substituiu o latim pelo Francês como língua oficial e patrocinou as primeiras expedições francesas à América, ampliou castelos famosos do Loire (Amboise, Blois, entre outros), teve seu sonho realizado: construiu CHAMBORD, um castelo desde a sua idealização, dedicado à caça.

Entrada do Chateau

O Château é uma gigantesca obra-prima renascentista – com toques medievais, jóia preciosa de arquitetura excepcional e de proezas técnicas espetaculares que fazem dele um conjunto patrimonial único na Europa, eleito patrimônio mundial da humanidade pela Unesco desde 1981.

Ala para passeio panorâmico

Devido às suas dimensões colossais, Chambord é conhecido como “o castelo de todos os exageros”. Estes são alguns dos números do gigante de pedra, edificado entre os anos de 1519 a 1685: 156 metros de comprimento, 56 metros de altura, 77 escadas, 282 chaminés, 800 colunas esculpidas e 426 divisões, uma propriedade com 5440 ha, cercada por um muro de 32 km.

Patio do Chateau

O interior do Castelo é um verdadeiro manisfesto do poder da monarquia francesa na Europa. Seus aposentos possuem uma riquíssima decoração. O grande destaque é a célebre escadaria de dupla evolução (dupla-hélice) formada pelo entrançado de duas escadas de caracol, servindo aos 3 pisos do palácio, que sobem em volta do núcleo central e são iluminadas de cima por uma espécie de farol no ponto mais alto do edifício.

Duas pessoas que utilizem cada uma, um dos lances de escadas, podem ver-se através das aberturas do centro sem nunca se encontrarem uma com a outra. O projeto da escadaria é atribuído (sem confirmação) a Leonardo da Vinci, como um presente ao Rei François I.

Na sala das carruagens encontramos modelos de todos os tipos e estilos, todos de deixarem boquiabertas até as princesas dos antigos contos-de-fadas. Encomendadas em 1871 pelo Conde de Chambord, foram produzidas por Binder, renomado construtor de carruagens, e seus arreios foram feitos pela tradicionalíssima Casa Hermès. Detalhe: muitos desses veículos nunca foram sequer utilizados.

O primeiro piso permite aos visitantes perceber os diferentes estilos da habitação (especialmente do século XVI ao XIX) através dos arranjos interiores, dispostos como em suas respectivas épocas.

Os aposentos do Rei François I são compostos por um quarto, dois gabinetes, um pequeno oratório e uma sala do conselho. Uma superfície de 270m². Detalhe interessante: impresso nas paredes, rodapés, tetos, enfim por todos os lugares, podemos encontrar desenhados a letra F (de François) e uma salamandra, adotada como seu emblema, juntamente com sua divisa: “nutrisco et extinguo”, “alimento-me (do bom fogo) e extingo (o mau fogo)”. Esse animalzinho, apesar de se assemelhar a um minúsculo dragão, é um batráquio e não um réptil.

Sua pele úmida de anfíbio lhe confere alguma resistência ao fogo, o que gerou a lenda de que é capaz de sobreviver às chamas, tendo portanto, poderes mágicos. François I concluiu que a salamandra seria a versão europeia do Dragão Branco, Senhor da Água, e adotou-a como símbolo, adornando os castelos do rio Loire com centenas delas (só em Chambord são mais de 800! – outro exagero a computar).

Curiosidade: sobre um painel de vidro de seu quarto, o rei François I, magoado pelo fim de um romance mal-sucedido, deixou uma mensagem escrita: “as mulheres são inconstantes e aquele que confia nelas é um tolo”. Ao ler isso, não me contive e falei em voz alta, como se o rei me ouvisse: – resistente ao fogo, mas não ao amor, não é, Vossa Majestade?

Ao caminhar e observar atentamente o salão de audiências, os aposentos da rainha e os demais aposentos do século XVIII, podemos perceber sutilmente as mudanças nos critérios de conforto, de uma época à outra. Esses indícios estão presentes na decoração, na mobília (conservada completamente como era), nos objetos de uso pessoal, expostos em redomas, e até na diminuição de espaço nos cômodos, que passam a serem menores, a terem sub-divisões e alcovas, e tetos rebaixados a fim de obterem um aquecimento melhor.

Quarto do Rei François

A maior divisão do Castelo fica do lado exterior. Uma capela de dimensões excepcionais, iniciada no reinado de François I e terminada no reinado de Louis XIV, por Jules Hardouin Mansart, também arquiteto de Versailles.

A história de Chambord é caracterizada por período de intensas atividades e também por longos períodos de abandono. Durante a corte de Louis XIV, Jean-Baptiste Poquelin, mais conhecido como Molière, encenou pela primeira vez duas de suas conhecidas obras: “O Senhor de Pourceaugnac” e “O Burguês Fidalgo”. Na Ala Oeste do palácio podemos encontrar um busto do artista.

A partir de 1821, o Conde de Chambord passa a ser o novo proprietário do Castelo, até a sua morte, em 1883. E em memória dele e ao período singular da História da França, no qual este último representante dos Bourbon teve um papel determinante, foi criado um museu. Nele estão expostos entre inúmeras coisas, a coleção de brinquedos militares do Conde, suas louças e pratarias, um leito cerimonial e uma série de belíssimas gravuras e retratos pertencentes a sua mãe, a Duquesa de Berry.

Durante a segunda Guerra Mundial, o Castelo abrigou um centro de triagem dos tesouros dos museus nacionais de Paris e do norte da França, a fim de protegê-los dos bombardeios alemães. Quase 4 mil quadros foram retirados do Louvre – inclusive a Monalisa, e levados para Chambord.

Nos apartamentos do Torreão há uma mostra permanente com belíssimas coleções dedicadas à caça, motivo pelo qual Chambord foi criado.

Com um muro de 32 Km de comprimento, o parque constitui atualmente o maior parque florestal fechado da Europa e reserva nacional de caça. Nele habita uma fauna de numerosos animais vivendo em total liberdade. Passeando ao longo dos 800 hectares acessíveis ao público é bastante provável que se possa cruzar por muitos javalis e cervídeos, entre outros.

Chambord é um casamento das perfeições da natureza e da intervenção do homem. Ele é ao mesmo tempo encanto e beleza, inspiração e composição. A História e as artes encontram ali mais do que uma moldura, mais do que uma simples composição ambiente, e sim, uma preciosa fonte de conhecimento e acompanhamento dos tempos, da cumplicidade criativa que tornou mais belos os concertos, os espetáculos, as caminhadas e é claro, as caçadas, realizadas ali por épocas e épocas, até os dias atuais, infinitamente mais mágicas. Se existem lugares onde a estupidez e a vulgaridade desaparecem – ou quase, o Château de Chambord é certamente um deles.

Em tempo: a novela da Rede Globo, “Cordel Encantado”, teve os seus primeiros capítulos gravados em Chambord.

Link 1: http://www.dailymotion.com/video/xgwsb9_une-telenova-bresilienne-debarque-a-chambord_creation?start=15#from=embed

Link 2: http://videoshow.globo.com/VideoShow/Noticias/0,,MUL1650014-16952,00-VIDEO+SHOW+ACOMPANHOU+AS+GRAVACOES+DE+CORDEL+ENCANTADO+NA+FRANCA.html

 

 

Orlando Baumel
Orlando Baumel
Chef de Cozinha, músico e sócio do site junto com a Carol. Casado, pai de 3 lindas garotas.
Exibindo 2 comentários
  • Tereza Ratts de Ratis
    reply

    Bônus – Meu album com 200 fotos do Castelo de Chambord: http://is.gd/anQgza – APROVEITEM!

  • Adalberto Queiroz
    reply

    Tereza,
    Eis um texto que todo francófono deveria receber.
    Parabéns!
    Amitiés,
    BetoQ.

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