Fala, Fal! – Comidas de Papel

Manteiga versus Margarina
12 de novembro de 2010
Cozinha
14 de novembro de 2010
Mostrar todos

Comidas de papel!

Manchas sem culpa…com  a querida Fal!

Comida de papel

“Nessas ocasiões eu ia para o quarto e lia. Lia sem parar. Deitava na cama e lia. Muitas vezes comia enquanto lia, em geral, laranjas. Pelo preço de uma peça grande de carne se podia encomendar uma saca de laranjas dos Sinoia Citrus Estates. Essa mistura de leitura e alimentação é comum entre crianças que gostam de ler. Você ingere imagens pelos olhos e calorias pela boca. Eu ainda não esgotara todos os livros da estante”.

Doris Lessing, em Debaixo da Minha Pele, o primeiro volume de sua autobiografia – Ed. Companhia das Letras.

Ler e comer, para mim, sempre foram atividades complementares. Para mim elas estão ligadas, são coisas que a gente faz ao mesmo tempo. Tudo começa, claro, na minha infância, o que me permite praticar meu esporte favorito: culpar meus pais. Ou neste caso específico, meu pai.

Acontece que meu velho e saudoso pai era desses caras: ele lia enquanto comia. E comia enquanto lia. Sentadão ali, a bordo de seus bigodes (o velho usou bigodes durante a sua melhor fase como pai. Pensando melhor, foi depois que ele tirou o bigode que a vaca veio do brejo. Nem pergunte), ele devorava jornais inteiros, livros de ficção científica e história, minhas redações (sim, her doctor, comecei a escrever para fazer papai e mamãe rirem), trabalhos científicos, mistos-quentes, vitaminas de banana, bolos com manteiga aviação, bifes suculentos e, quando a minha mãe pegava no pé, saladas. Com apenas dois braços e duas mãos, o velho destrinchava frangos, levava colheradas de sopa até a boca, virava páginas, fazia anotações às margens dos livros e corrigia minha ortografia – corrigia errado, mas diabos. E tudo isso quase sem babar no guardanapo ou pano de prato, que amarrava no pescoço sem um pingo de vergonha.

Eu achava aquilo sensacional. Como meu pai, eu adorava ler. E amava comer. Porque não fazer tudo junto, meu Deus do Céu.

A dura realidade da vida me mostrou que jamais chegarei aos pés de papai, sou incapaz de ler e tomar sopa ao mesmo tempo. Sim, amigos, a verdade é triste. Também não sou a mais hábil criatura da terra no quesito leitura + sanduíche. O recheio do sanduba acaba sempre no meu peito.

O velho tinha um dom. O dom errado, mas ainda assim, um dom.

Assim sendo, ao longo de todos esse anos de livros e de ceva, fui listando comidinhas ideais para cumprir minha missão sem manchar – nem a memória do meu velho e saudoso pai, nem minha blusa, porque roupa para gordo é caríssimo.

Seguem receitas e quatro garotas queridas. Moças lindas e elegantes, grandes escritoras, grandes cozinheiras, que vivem num mundo encantado, onde as cozinhas são ilhas de paz e onde engordam os amigos sem o menor pudor.

Receitas perfeitas para comer com os olhos na leitura.

Bolinhos de mel e especiarias (da Patrícia – http://technicolorkitchen.blogspot.com/)

“Fal, há alguns dias eu falava de como fico pra baixo na época das festas – vi panetones no mercado e me dei conta de que o Natal está praticamente aí. Por outro lado, adoro as comidinhas desta época – venho pensando numa série especial de posts, como fiz ano passado, e com sorte com mais receitinhas ainda.

 

Ainda é cedo para começar a série natalina por aqui, eu sei, mas não pude resistir a estes bolinhos – eles estão na revista Donna Hay que recebi sexta passada.

Beijos

Patrícia”
– xícara medidora de 240ml

¼ xícara de mel
¼ xícara de glucose de milho (Karo)
½ xícara de açúcar mascavo – aperte-o na xícara na hora de medir
¾ xícara de leite integral
¾ xícara (105g) de farinha de trigo
1 ¼ colheres (chá) de fermento em pó
1 colher (chá) de gengibre em pó
¼ colher (chá) de canela em pó
1/8 colher (chá) de cravo em pó
1/8 colher (chá) de pimenta-da-jamaica moída
1 pitada de noz-moscada moída na hora
65g de manteiga sem sal, fria e picada
1 ovo
açúcar de confeiteiro, para servir

Pré-aqueça o forno a 180°C; unte com manteiga 12 mini forminhas de furo central com capacidade para 1/3 xícara (80ml) cada.*
Coloque o mel, a glucose de milho, o açúcar mascavo e o leite numa panelinha e leve ao fogo médio, mexendo até dissolver o açúcar. Retire do fogo e deixe amornar.
Coloque a farinha, o fermento em pó, o gengibre, a canela, o cravo, a pimenta-da-jamaica, a noz-moscada e a manteiga no processador de alimentos e processe até obter a textura de farelo de pão. Com o processador ligado, acrescente aos poucos a mistura de mel e processe até obter uma massa homogênea. Acrescente o ovo e processe por mais 1 minuto. Divida a massa entre as forminhas preparadas e asse por 20-25 minutos ou até que cresçam e dourem (faça o teste do palito). Deixe esfriar nas formas por 10 minutos e então desenforme com bastante cuidado. Deixe esfriar completamente sobre uma gradinha. Polvilhe com açúcar de confeiteiro antes de servir.

* fiz exatamente a receita acima e usei 4 forminhas com capacidade para 1 xícara (240ml) cada

Rend.: 12 unidades

Gazpacho Al Borde (da Ticcia – http://www.ticcia.com/)

1 lata de tomate pelado, com o suco

1/2 pepino
1 dente de alho

1/2 cebola média

1 tira de pimentão
sal
azeite de oliva do bão
vinagre de vinho

gelo
orégano
1 pão francês dormido

1 pitada de molho inglês

tabasco

salsa

“Fal, bate tudo no liquidificador. Vantagens: 1) para um compulsivo, tudo que puder tomar “à vontade”, melhor, ainda mais distraído com leitura; 2) usa-se uma mão só para virar o copão, a outra fica livre para folhar o livro; 3) a sobra do gaspacho vira Blood Maria no final da tarde, basta adicionar vodca.

Beso, Nena.

 

Ticcia Pepa”

Sopinha de Colo e Queimadinho (da Cam – @cseslaf)

“Bom, Virgínia, vou poupar o mundo da minha fase coentrística e te mando uma sopa que sempre faço para a Catarina, sopa essa que eu beijaria os pés de quem fizesse para mim em noites frias, mas a qual ela costuma recusar 7 em cada 10 vezes, em troca de macarrão passado na manteiga. Hélas. Como toda receita caseirinha, as quantidades são todas meio no olho.”

Sopinha

2 ou 3 linguiças de boa qualidade

1 colher de chá de sementes de erva doce
1 fatia grossa de bacon
1 colher de massa de tomate
1 cebola
2 dentes de alho
3 tomates
1 batata média
1 cenoura média
1/2 a 1 xícara de vagem manteiga picada (a gosto)
1 xícara de folhas de espinafre rasgadas
1 talo de salsão
1 alho poró grande
1 lata de feijões brancos cozidos
1 ou 2 punhados de macarrãozinho para sopa (tipo ave maria)

Remover a tripa das linguiças (é tripa ainda, Virgínia?), misturar as sementes de erva doce e fazer pequenas almôndegas. Reserve.
Numa panela grande, refogue no bacon a cebola, o alho e o alho poró picadinhos. Eu uso o bacon para formar um fundo e depois retiro, mas pode-se deixar, por conta e risco do cliente. Quando estiver dourando, refogue as almôndegas até tomar cor. Acrescente a pasta de tomate, os tomates, a batata, a cenoura, o salsão, todos finamente picados e cubra com água fervendo. Quando estiverem macios, mas não totalmente cozidos (ah, o olho…), junte os feijões, o macarrão, a vagem e o espinafre. Ajuste o sal e a pimenta do reino no processo e sirva com boas doses de queijo parmesão ralado na hora.
Se a ingratidão da filha der o ar da graça, sirva a sopa para os adultos com uma bela colherada de pesto no centro do prato. Pesto facinho, de liquidificador, manjericão, azeite, nozes e muito parmesão (hold the garlic for me), ou pesto Barilla, que filha ingrata tira o humor de qualquer um mesmo.”
“De sobremesa, se a sopa for respingar demais nos livros, e inspirada na saudade da Patrícia, um docinho mineiro que é a cara da minha mãe, direto dos cadernos da própria. Você escolhe qual das duas cairá melhor na crônica.

Amor, fome,

Rafaela, que morre de saudades de comer lendo”

Queimadinho

– 4 ovos

– 1 ½ xícara de açúcar

– 1 lata de creme de leite

– 1 lata de leite condensado

– 1 litro de leite, em temperatura ambiente

Queime o açúcar numa panela e derrame o leite sobre ele. Quando estiver fervendo, acrescente o leite condensado. Bata levemente com um garfo as gemas, junte a elas um pouco do leite fervendo para temperar e despeje na panela, sempre misturando para não formar grumos. Em separado, bata as claras em neve. Quando a mistura voltar a ferver, incorpore cuidadosamente as claras, em colheradas, e deixe que elas cozinhem um pouco, firmando. Por fim, misture o creme de leite sem soro. As claras devem ficar com aspecto de flocos no creme (similar a ovos nevados, mas em pedaços menores). Depois de esfriar, leve à geladeira. [Para comer gelado, chorando, e para beber de xicrinha o creminho que sobra depois que as claras acabam]

(leitor, Cam e eu nos chamamos de Virgínia e Rafaela. Nem pergunte, apodos de amor)

Torta de banana da Fernanda (http://maiscanela.wordpress.com/), que você jura que não dá certo, mas dá

(medida para uma travessa retangular grande)

12 bananas cortada em tiras

2 colheres de sopa bem cheias de chocolate em pó
6 ovos
Um tablete de manteiga cortado em cubinhos

Óleo (para untar)
20 colheres (sopa) de farinha
20 colheres (sopa) de açúcar
canela

Como fazer:

Untar a travessa com óleo e farinha. Misturar em uma tigela a canela, o açúcar e a farinha. Forrar a travessa com a mistura de farinha, açúcar e canela e mais os cubinhos de manteiga. Depois, uma camada de banana com o chocolate em pó. Continuar intercalando as camadas:
No final jogar os ovos batidos por cima de tudo e levar ao forno em temperatura média por mais ou menos meia hora.
O que a Fernanda tem contra mim eu não sei, mas a receita é essa, um crime.

Print Friendly, PDF & Email
Orlando Baumel
Orlando Baumel
Chef de Cozinha, músico e sócio do site junto com a Carol. Casado, pai de 3 lindas garotas.

3 Comentários

  1. Deh disse:

    Eu tenho uma pontinha de vergonha, sempre tive, em confessar que se você abrir meus livros de infância e adolescência mais queridos vai encontrar migalhinhas de pão prensadas em meio às folhas. A imagem da minha mãe comendo um sanduíche na cozinha vazia em frente a um livro depois que vinha do trabalho tarde da noite ainda é bem forte pra mim também.
    Na medida do possível eu só leio comendo. Se você perguntar pros frequentadores da cantina lá do Local de Serviço vão poder me descrever pra você como a funcionária que lancha e lê, e se você aparecer por lá por volta de 16:16 todo dia vai me reconhecer como o corpinho nada modesto que tem um livro no lugar da cabeça; o pão na chapa e o copo de suco do lado. Não tem duas coisas que combinem mais, leitura e comida.
    Beijo!

    • Orlando Baumel disse:

      Lindo comentário, Deh!! Lindo demais…sei que quem deveria responder isto, seria a Fal…mas,não aguentei! Muito obrigado por ser tão emocionante quanto tudo que a Fal escreve para meu OBA…
      Um beijo!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

%d blogueiros gostam disto: