Fala, Fal! – Carne Crua

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carne crua

Carne crua.

Uma volta às cavernas, com a Fal Azevedo.

Carne Crua

No princípio era a coleta.

Sim, coleta para alimentar o mais esquisito animal que já existira.

Ele tinha capacidade de caminhar sobre dois membros e de manter os outros livres; a oposição de seu dedo polegar em relação aos outros dedos da mão, que permitia movimentos muito precisos. Como outros animais, ele aprendia com seus erros e podia transmitir conhecimento aos outros membros de suas tribos, mas de forma muito mais bem sucedida do que jamais fora visto.

Ao longo de nossa lenta evolução, isso tudo nos possibilitou domínio sobre os outros animais, maior facilidade na obtenção de alimentos, capacidade para fabricarmos ferramentas e para transmitirmos o que sabíamos aos outros.

No começo, o homem coletava frutos para poder sobreviver. Durante todo o processo, descobrimos que podíamos aprender, acumular conhecimento.

Descobrimos como dominar e produzir o fogo, e isso mudou nossas vidas. Podíamos enfim nos aquecer e, portanto, explorar lugares mais frios, cozinhar alimentos e amedrontar os animais ferozes que ainda nos caçavam.

O homem do Paleozóico se desenvolve muito devagar, cada pequena conquista e cada pequeno avanço rumo à rua asfaltada e ao Prozac (rarará, que na nossa modesta opinião são os maiores legados da civilização) levavam centenas de anos para se concretizar, e mais algumas boas centenas para serem difundidos e superados.

A linguagem oral engatinhava e a fabricação de instrumentos de osso e pedra, com os quais aqueles bravos rapazes caçavam, guerreavam e faziam entalhes nas paredes, vai sendo desenvolvida até que eles possam contar com suas habilidades de grandes provedores, até que eles alcancem o topo da cadeia alimentar.

Nem sempre vocês estiveram aí, de carro importado e óculos de grife, humilhando faxineiras e desprezando manobristas. Tempo houve em que vocês eram apenas chiclete de onça.

Falando de toda essa mudança assim, em dois ou três parágrafos vagabundos, parece simples, não?

Mas gerações e gerações foram necessárias para que eles desenvolvessem maneiras rudes para lascar o sílex, para que eles tivessem coragem e engenho para disputar com animais maiores e muito mais bem adaptados que eles (grandes felinos, por exemplo) a caça da região. Para que eles aprendessem como usar seus polegares, seu caminhar ereto, seu grande cérebro na caça, na pesca, na proteção de seus bebês, na sobrevivência. Muitos, muitos, muitos anos separam o primeiro homem paleolítico atraído pelo fogo causado por um raio numa árvore de outro que soubesse dominá-lo e até de um outro que descobrisse como produzi-lo sozinho. Você já foi escoteiro? Já tentou produzir fogo, pelo amor de Deus, assim, do nada? Tente produzir fogo, descubra quanta têmpera, obstinação, inteligência, desejo de superação e, sim, por que não, fé, são necessários para que isso aconteça.

Os hominídeos do paleozóico viviam em grupos pequenos, abrigando-se em cavernas. Sua subsistência dependia da coleta de frutos e, depois de muito tempo, de muitas mortes, de muitas gerações que se sucederam no ensaio e erro, da caça e da pesca.

Dominar o fogo e cozinhar os alimentos foi uma mudança e tanto porque perdíamos muitas horas de nossos dias mastigando e digerindo a carne crua. Cozinhar nos deu tempo.

Além disso, cozer alimentos ajuda a conservá-los. Menos caçadas são necessárias.

E mais uma coisa: acentua o sabor. A comida fica mais gostosa. Comer passa a ser, mais que o ato de suprir uma necessidade, um ato de prazer. Ao contrário de quando nós nos alimentávamos de raízes, a carne impõe que estejamos todos juntos na hora de comer, inventamos a refeição em família (no próximo almoço de domingo na casa da sua tia-avó, você já sabe a quem culpar).

Inventamos, rapidamente, rituais sociais básicos durante as refeições. E essa é uma atividade humana cheia de símbolos até hoje.

Durante as caçadas, outra contribuição importante da comida para nossa civilização:  vimos que os animais estavam muito mais protegidos que nós.  E que, assim, podíamos abatê-los não apenas pela carne, mas também pelas peles.

Usar peles era complicado porque apenas colocá-las sobre os ombros tolhia os movimentos e não nos esquentava de verdade. Assim, procuramos formas de dar-lhes forma. Outro problema das peles é que, depois que secavam, tornavam-se duras. Torná-las maleáveis passa a ser nosso objetivo. Tentamos mastigá-las (as mulheres esquimós ainda fazem isso) e sová-las com um malho.  Curtir o couro e costurá-lo (toscas agulhas feitas de osso de animais foram encontradas em cavernas paleolíticas) é coisa que fazemos há muito, muito tempo.

É quase certo que nesse período usávamos a arte também como prece, como pedido, como magia – dominávamos a vida reinventando-a – mas não era apenas o Divino que buscávamos e obtínhamos através dela.

Éramos caras complexos, cheios de emoção, fúria e medo, cheios do  que expressar.

Acontece que homem do paleolítico já não estava muito feliz sendo nômade.

Esse negócio de sair pelo mundo atrás de manadas, sem saber se na região vai haver uma caverna para abrigar seu grupo, tendo que lidar com novas feras, novas regras, com o clima atacando a sinusite e ainda por cima perdendo o Júnior na pradaria, é complicado, convenhamos.

O pobre Homem das Cavernas merecia um descanso.

CARPACCIO BÁSICO

Aprendi, faz muito, que o carpaccio foi inventado nos anos 50 do século passado, em Veneza, para curar a anemia de uma velha condessa. Só Deus sabe. Cada receita que conhecemos tem vários pais e mães e muitas origens. Só da maionese, conheço quatro surgimentos diferentes. O Carpaccio tem um monte de explicações. E todo mundo tem razão. Mas isso não importa.

Um pedaço de aproximadamente 300 gr de contra-filé  (bão, eu uso contra-filé, você pode usar filé mignon, atum, picanha, salmão ou seja lá o tipo de animal morto e cru que você prefira)

6 colheres ((chá)) de molho inglês (a conta é assim, 2 colheres para cada 100 gr. de carne) 9 colheres de mostarda (faça as contas)

Kibe cru

Ingredientes

1 kg de patinho moído (sem gordura)

2 cebolas picadas

3 xícaras de trigo (existe um trigo especial para kibe)

1 colher (de sobremesa) de zathar (é um tempero seco que mistura gergelim moído, tomilho e sumac)

1 maço de salsinha picada

2 maços de hortelã picada

Sal

Pimenta síria

Limão

Como fazer

Deixe o trigo de molho por duas horas. Passe primeiro a carne, e depois a hortelã e os demais temperos no processador. Escoe a água do trigo em uma peneira fina. Esprema muito bem o trigo, para eliminar toda a água. Misture trigo, carne e temperos de novo e de novo e de novo, até formar uma massa homogênea. Cubra com papel filme e coloque na geladeira por duas horas. Na hora de servir? Esprema limão. Não tem erro.



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Orlando Baumel
Orlando Baumel
Chef de Cozinha, músico e sócio do site junto com a Carol. Casado, pai de 3 lindas garotas.

3 Comentários

  1. Coisa linda de texto. Na era paleolítica, a busca por uma gordurinha extra do osso (e de dentro dele) era gigantesca também,será que naquele tempo já sabíamos o que era bom?

  2. fal disse:

    Ô João, acho que sim :o)

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