Fala, Fal!

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Cozinhas pequenas.

Sua cozinha é pequena? Aprenda com a encantadora Fal.

Ovo de tico-tico

Se cozinhar é antes de qualquer coisa um ato de entrega, de amor, um doce gesto feito com a intenção de cuidar de quem se ama, então em verdade vos digo, cozinhar em cozinhas pequenas, sem ventilação, sem bancadas suficientes, sem área de circulação decente e sem lugar para guardar tudo o que se precisa ao alcance da mão é amor ao quadrado, é amor de filme, é amor que não cabe no peito. Porque vamos combinar, o inferno é uma cozinha pequena.

Meu apartamento enquanto fui casada, lá na aprazível e nunca assaz louvada Vila Sônia, foi construído nos anos 80 do século passado. E o que dizer da década de 80? A década de 80 estabelece a mulherada, de uma vez por todas, no mercado de trabalho. Nós já vínhamos flertando com o tal mercado de trabalho há quase 100 anos, e, com mais ênfase, depois da II Guerra Mundial (“nós” é um eufemismo para “mulheres de classe média”, porque as mulheres pobres sempre trabalharam desde que o mundo é mundo.)

Ter uma mulher que não trabalhava foi uma demonstração de status durante muito tempo. Você sabe: “Mulher minha não precisa trabalhar”. Durante o século XX esse padrão foi mudando, mudando, até que chegamos aos anos 80. A década de 80 recebe em seus braços a primeira geração de mulheres inteiramente educada para trabalhar fora. A geração da minha mãe, e talvez uma depois dela (minha mãe se casou no comecinho dos anos 70), ainda via o trabalho como um talvez, dependia da moça querer, do pai deixar, do marido aprovar. Mas as moças que se formam e vão para a vida a partir da década de 80 têm que trabalhar. Foram criadas e catequizadas nesta certeza (como somos até hoje). E, como já disse, meu apartamento foi construído nos primeiros anos da década de 80. Ou seja, meu lar foi bolado e erguido por moças e rapazes absolutamente certos de que ninguém, nunca mais, sujaria o avental de ovo.

Pero, los años passam.

Vieram os anos 90, que nos libertaram das ombreiras marciais (na década de 80 eu usava ombreiras até nos meus pijamas), do blazer azul royal (que Deus me perdoe) e do pavoroso corte de cabelo poodle-repicado (que seja dito em minha defesa, isso eu nunca usei). Os anos 90 nos deixaram entrar nos vestidos disformes e floridos. E depois dos anos 90, veio um século novo, que nos deixou voltar para casa! Sim, leitor amigo. Nossas casinhas fofas. Não que nós não trabalhemos, claro que ainda nos matamos naquela firma maldita, naquela repartição sebosa. Mas os anos novos, de um novo século, liberaram homens e mulheres para assar pão de ló nas horas vagas, para sonhar com o fogão que tem cinco bocas e dois fornos, para desejar a máquina de waffles e a viagem para antigas casas de fazenda no interior de São Paulo “só para ver como a cozinha era”. E também estamos todos liberados para desejar mais uma reforma na cozinha em vez do doutorado, amém.

Bem, só que nesse novo século eu (e muitas como eu) voltei para onde? Exato. Voltei para uma cozinha dos anos 80. A década da entrega de pizza. Ou seja, minha cozinha simplesmente não foi feita para cozinhar.

Voltamos para a cozinha, todas de rabinho abanando, contentinhas, sentindo-nos muy prendadas e virtuosas e constatamos que AAARRRRGGGGHH! Nossas cozinhas são pequenas demais! Beges demais! Escuras demais! Mal boladas! Com poucas tomadas! Poucas bancadas! Armários ilógicos! Pias ridículas! Claro, são cozinhas feitas para quem não ia cozinhar!

E nós nos danamos a reformar, quebrar chão, botar azulejo branco, inventar balcão e o escambau. Às vezes funciona. Mas a verdade é que 100% não fica. Não cabe uma cozinha de fazenda aqui, a não ser que eu entre a marretadas no apartamento de Élcio e Renata, meus vizinhos de parede, rezando para que eles não me notem dentro da casa deles, criando galinhas e abrindo a massa do pão.

Mas por que é que eu estou falando nisso, justo hoje? Porque vou receber amigos para jantar. E estou há três horas e meia às voltas com pimentões recheados, filés de cação, aliches, azeitonas e uvas-passa, surtando len-ta-men-te e chorando baixinho, porque eu não tenho espaço para me mexer, não tenho lugar para apoiar nada. A cada novo patê que faço tenho que, antes, lavar toda a louça. A pia é minúscula e inclina-se levemente para a direita, o que significa que ela freqüentemente vira um lago, que tem que ser drenado. O forno transforma tudo num banho turco e cada vez que tenho que subir na escada para pegar uma tigela (claro, a cozinha é minúscula, então as coisas ficam guardadas lá no alto), o vapor quase me faz desmaiar.

Depois de preparar o jantar desfiando um repertório de palavrões que traumatizou os gatos e de servi-lo (modestamente com muito sucesso), eis-me aqui, com um pouco menos de ódio da minha cozinha, organizando meus pensamentos e, quem sabe, sendo útil para você também.

Os passos básicos das donas-de-cozinhas-pequenas-que-não-querem-enlouquecer-nos-dias-de-festa

1 – Nós, as donas-de-cozinhas-pequenas-que-não-queremos-enlouquecer-nos-dias-de-festa, devemos simplificar.

O que significa que devemos limar nossas cozinhículas de tudo que não for essencial. Taças, louça de festa, jogo de chá que só é usado duas vezes por ano? Para a sala com tudo. Mande fazer uma cristaleira ou chantageie a sua sogra para ela lhe dar a dela, mas livre sua cozinha da tralha. Desapegue-se dos eletrodomésticos que você não usa. Se em três anos você só usou a panela elétrica duas vezes, é óbvio que ela não faz parte do seu repertório culinário. A mesma coisa com a máquina de pão. Dê as duas para sua irmã. E isso também vale para os potes de plástico dando cria na parte de baixo do armário e para os trocinhos de por ovo cozido (como se chama aquilo, meu Deus?). Quem, além da minha mãe, usa aquela droga? Tapaué sem tampa e panela anti-aderente descascando? Livre-se disso tudo.

2 – Uma semana ou dez dias antes do jantar (ou um mês, se você for neurótica como eu) sente a bunda numa cadeira e faça planos por escrito. Sugiro que você faça uma lista. Uma não, várias listas. Listas óbvias (“quem vem”, “o que servir”, “o que comprar”), mas também a lista mais importante de todas: “Escala”. E o que consta da sua lista de escala? Tudo, passo a passo, que você pode (e deve) ir fazendo nos dias anteriores ao jantar. Os patês, alguns acompanhamentos, a montagem da lasanha, até alguns tipos de carne podem ser feitos com dois ou três dias de antecedência, devem ser levados em conta na hora de organizar o cardápio. Você não precisa fazer tudo quatro horas antes do jantar, você não é obrigada a passar a tarde chorando, calega. Eu juro.

3- Antes de fazer qualquer coisa, ARRUME A GELADEIRA. Crie espaço para as comidinhas que vão morar lá até a hora de serem aquecidas. Não adianta fazer o bolo mais lindo do mundo se ele não couber na geladeira.

4- Depois que a geladeira estiver em ordem, arrume a cozinha. Lave e guarde toda a louça de uso diário. Aproveite, lave e guarde a louça do seu jantar também. Isso vai poupar trabalho no dia de receber visita e é algo que você pode fazer com alguns dias de antecedência. Limpe bancadas, guarde tranqueiras, abra espaço para travessas, tigelas, potes com ingredientes etc…

5- No dia D, calma. Respire fundo. Não invente moda, dia de visita não é dia para pensar, é dia para seguir sua lista de planejamento à risca. Faça uma coisa de cada vez. Primeiro um patê, depois o outro. Molho disto, acompanhamento daquilo, na manha.

6- Conforme você for acabando cada prato, GUARDE-O antes de começar outro. E na geladeira, tudo coberto com papel filme, principalmente os patês, que oxidam que é uma beleza.

7- Lave a louça suja entre uma preparação e outra, ou vá colocando no tanque, sei lá. Mas não deixe que a louça suja ocupe o pouco espaço livre que sua cozinha tem.

8- Seque e limpe a pia o tempo todo. A ruína duma geladeira é travessa de fundo molhado pingando agüinha nojenta nas prateleiras de baixo, botando a perder todas as comidinhas que você guardou sem me obedecer e não cobriu de papel filme. Não tenha dó de seus panos de prato e panos de pia. Que eles sejam paus para toda obra, fortões, que eles agüentem molhos e melecas, água fervendo e cândida. Deixe os cheios de babadinhos para pendurar na cozinha no dia que vem visita e na vida real prefira os paus para toda obra. Aliás, os melhores panos de pia que existem são as fraldas. Durante o preparo dos pratos, deixe um tigelão separado só para lixo: cascas, latas vazias, papel toalha usado etc.

9- Também tenha em mãos muito papel toalha. Vá por mim. Papel toalha é uma grande invenção.

10- No frenesi, cuidado com as bocas de fogão. Tigelas e talheres plásticos derretidos tiram a gente do sério. Cuidado também com os frascos de material de limpeza encostados no fogão em funcionamento. A gente passa por perigos infames e nem se dá conta.

Enfim, companheira-dona-de-cozinha-pequena, tenha coragem. Porque fácil não é. Mas também não é impossível.

Orlando Baumel
Orlando Baumel
Chef de Cozinha, músico e sócio do site junto com a Carol. Casado, pai de 3 lindas garotas.

8 Comentários

  1. Ah Fal, além de trabalhar projetando cozinhas – das grandes até as muito menores que a sua – sou uma feliz proprietária de uma mini cozinha, e compartilho com você técnicas de empilhamento que desafiam leis da física; não sei o que seria da minha vida sem meu estoque de papel toalha e como sempre, adoro ler seus textos, pois sempre me descubro com alguém que mesmo muito longe, me entende muito bem!

  2. Tereza Ratts de Ratis disse:

    Boa tarde, querida Fal!

    Muito pertinentes e importantes dicas! Muitissimo obrigada! Acredita que eu praticamente as sigo todas? Explico o porquê: esta cozinha/este tipo de apartamento os quais você chama de “anos 80”, são um luxo em se falando de espaço, aqui na Europa, mais ainda, na terra da gastronômia, a França. Pois é…
    Esta que vos tecla, habita um “château” de 60 m2, considerado de excelente tamanho para um casal – de gatinhos, né? – no 1° ou 2° ano de casados. Não vejo a hora de fazer o 2° ano de aniversario de casorio e promover um upgrade de espaço. Quem sabe para um “recém-construido château anos 80”, na terra do menos é sempre mais, até em se falando de m2 habitado! Maaas quem liga pra essas coisas materiais, não é mesmo?
    Aqui é igual a coração de mãe: amigo, sempre cabe mais um!
    Obrigadissima (mais uma vez) pelas dicas, um grande beijo e “à bientôt”!
    😀

  3. fal disse:

    Ah, Carol!! Cozinha pequena nos transforma em malabaristas! :o)
    Tereza, querida, receba meus beijos de fã.

  4. Ana Paula disse:

    Texto incrível, como sempre!

  5. eloisa disse:

    hahahahahahaha… adorei seus vizinhos não te virem criando galinhas e abrindo massa de pão… vc é ótima!

  6. Valéria disse:

    Fal,
    só tenho um comentário a fazer: graças a Deus moro num apê construído nos anos 60, em que a cozinha é imensa (minha vizinha nova quase teve orgasmo qdo percebeu que cabia mesa na cozinha).
    Amei o texto, como sempre.
    Bjks

  7. Adrina disse:

    Eu só não digo que esse texto poderia ter sido escrito por mim porque eu não sei escrever, lógico. A minha vida tá aí: uma cozinha ridiculamente pequena que me obriga a abrir o forno de lado para tirar o pão; a lavar tudo, o tempo todo; enxugar a pia obsessivamente e empilhar coisas de modo a desafiar as leis da física, como disse a colega aí em cima.
    Beijo grande, Fal!

  8. Tati disse:

    To aqui chorando de rir, e lógicooo relembrando meus malabarismos culinarios, ja tive a petulancia de receber e cozinhar(preparar, arrumar, decorar,servir…) 27 pessoas em um apartamento em sao paulo, sozinha e na vespera de ano, entaummm, ja viu né, precisava de uma cozinha industrial, com ajudantes, mas mesmo com a minha pititica cozinha tudo deu certo, fora o aquecimento dos pratos, claroooo, pq alguma coisa sempre da errado , né, rsss. Felizmente era dezembro e meu enorme, antigo e fabuloso micro ondas deu uma força, obrigada pela cronica e grande abraço Tati

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