A Páscoa das Pessankas

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Pessankas – a verdadeira Páscoa dos Ovos!

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Neste feriado que antecede nossa Páscoa, pensei muito no que escrever. Queria fugir das receitas tradicionais desta época, como Bacalhau. Aí me ocorreu escrever sobre uma das tradições que considero a mais representativa para a Páscoa: as Pessankas ucranianas. Ovos pintados à mão com um capricho fora do comum e presenteados aos amigos no dia da Páscoa! E claro, sem fugir da Gastronomia, pois o Ovo é uma daquelas coisas que dispensam maiores explicações…Moro perto do Parque Tingui, aqui em Curitiba. No Parque foi construído o Memorial Ucraniano e dentro dele uma réplica de uma das primeiras Igrejas Ucranianas construída no Brasil! A Igreja de São Miguel do Arcanjo, feita no fim do século XIX no município de Mallet, aqui no Paraná.

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dsc01902Segue um estilo arquitetônico bizantino, tradicionalmente usado nas igrejas ortodoxas eslavas. Possui cúpula oitavada de bronze e um campanário externo. A réplica da igreja não tem função religiosa. No seu interior são expostos ícones religiosos, uma coleção de pessankas e artesanato ucraniano.

                                                        AS PESSANKAS

Na história do povo que habitou as estepes sempre esteve presente uma tradição de colorir ovos na época em que o Sol voltava triunfante, eliminando a neve que cobria a rica terra negra da Ucrânia. Em escavações arqueológicas, foram encontrados indícios desta arte a mais de 3.000 anos antes de Cristo, sendo que naquela época, eram utilizadas ferramentas muito rústicas para se confeccionar uma pêssanka. A explicação para o interesse do ser humano antigo pelo ovo, está no fato do mesmo possuir uma magia incrível, pois de uma forma simples e rude, surgiria a vida.

Com o passar dos anos, as ferramentas gradativamente evoluíram e com elas o homem conseguiu melhorar suas condições materiais e também os resultados da suas pinturas em ovos, surgindo melhores definições daquilo que desejava expressar.

Os ucranianos, em paridade com todos os povos antigos, veneravam a natureza e os regentes dos elementos. Assim como outros povos antigos veneravam o Sol com Apolo e seu carro puxado por leões, os ucranianos reconheciam no mesmo astro, o Dajbóh, e à ele ofereciam homenagens, pois novamente traria luz e calor para a Terra. O verde substituiria o branco da neve, as flores voltariam a desabrochar, as árvores ofereceriam seus frutos novamente e o povo poderia trabalhar a terra para obter seu sustento.

A festa da Primavera era um evento alegre, era acendida uma grande fogueira no meio da aldeia e todos comemoravam a chegada de Dajbóh, no exato momento do Solstício de Primavera. Desde o início deste dia o povo estava em festa. Oferecia seus presentes ao regente Dajbóh e entre os mesmos estavam as pêssankas. Nelas estavam gravados os raios de luz que seriam oferecidos à terra, a partir desta importante data do povo antigo.

Também nesta festa eram oferecidas pêssankas aos entes da natureza, fazendo seus agradecimentos pelas colheitas e também firmando seus pedidos para que a terra continuasse produzindo aquilo que necessitavam para viver. Estas pêssankas eram enterradas no campo, nas lavouras, pois deveriam ser presentes aos amados entes da natureza.

g501Neste tempo anterior ao cristianismo, o povo tinha suas crenças voltadas para aquilo que via e sentia. Era uma época em que mais do que nunca, o ucraniano estava ligado à natureza, sua fonte de vida e energia. Em 988, através do Príncipe Volodymir, a Ucrânia é batizada nas margens do Rio Dnipró, passando a adotar o cristianismo como religião oficial. O povo absorveu essa mudança, mas não aceitou abandonar seus antigos rituais, como as Festas da Primavera.

A solução encontrada pelo clero foi a adaptação deste antigos costumes, como símbolos cristãos, ou seja, permitiam e até apoiavam o povo à manter essas tradições consideradas pagãs, mas lhes incutiam um simbolismo correlato ao cristianismo.
A antiga e tradicional Festa da Primavera, transformou-se na Páscoa cristã, por se tratar da mesma época. O povo continuava com os antigos festejos, mas mudava-se gradativamente o sentido da ocasião festiva. As pêssankas, continuaram existindo, o povo não deixou o costume de colorir ovos para expressar seus sentimentos, mas o clero religioso fez com que se abandonassem as crenças nos entes da natureza, deviam ser extintos os costumes tidos como pagãos.

As pessoas passaram então a fazer pêssankas para dar aos parentes e amigos respeitados, na época da Páscoa, para demonstrar tudo aquilo que desejavam para seus entes queridos. As pequenas obras de arte também passaram a aparecer em datas importantes, como casamentos e nascimentos, como materialização das boas intenções que se queria expressar.

Na conturbada história da Ucrânia, o povo passou por muitos períodos de instabilidade social, tendo muitas vezes a miséria e a opressão imperando sobre seus lares. Domínios russos, poloneses, austríacos, húngaros, duas guerras mundiais, o comunismo… e as pêssankas continuam acompanhando a vida desta gente, que veio para o Brasil em busca de um futuro melhor para seus filhos, trazendo na bagagem uma cultura milenar, que hoje respira a liberdade.

A Ucrânia, em 1991 finalmente adquiriu sua independência, exigida pela população que saiu às ruas e hoje, além da seu valor cultural, simbólico e artístico, as pêssankas passaram a ser um símbolo de longevidade para uma Ucrânia livre e independente.

Os imigrantes ucranianos vieram para o Brasil em busca de condições melhores de vida. Na época, a Ucrânia estava sob domínio do império áutro-húngaro e milhares de pessoas deixavam a terra natal, com dor no coração, mas certos de que no novo país, seus filhos não seriam humilhados, como eles que viviam em condições miseráveis pela imposição dos opressores.

No Brasil, começou-se uma nova vida, a tão sonhada liberdade finalmente era real, podia-se falar, cantar, dançar, sem medo de que algum oficial os reprimissem por estarem expressando a cultura ucraniana. Apesar de toda a dificuldade enfrentada na adaptação um meio ambiente totalmente adverso, com condições materiais precárias, este povo se considerava feliz, por agora possuir um bem inestimável, que só damos valor quando perdemos: a liberdade.

E a arte das pêssankas acompanharam esses imigrantes, pois no Brasil tudo se podia fazer livremente, e as tradicionais peças, tão queridas pelo povo, surgiam na Páscoa, enfeitando as Cesta de Páscoa, sendo dadas de presente, ou sendo enterradas no campo para pedir uma boa colheita…

Nos lares contemporâneos, as pêssankas além de serem peças decorativas, são consideradas como talismãs, livrando as pessoas de diversos males, e trazendo bons fluídos. Acredita-se que quando uma pêssanka se quebra espontaneamente, algum infortúnio deixou de atingir as pessoas da casa.

As pêssankas são apreciadas por diversos povos, e no Brasil, esta arte sempre tem espaço na mídia, valorizando os costumes ucranianos, que se são mantidos pelos seus descendentes. (Vilson José Kotviski – Representação Central Ucraniano-Brasileira) 

As Pessankas seguem normas de grafismos em sua grande maioria. Cada desenho tem sua representação, como segue no exemplo abaixo.

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No Memorial Ucraniano do Parque Tingui em Curitiba você também encontra uma bonita escultura, de autoria do artista plástico Jorge Seratiuk, representando uma Pessanka!

dsc01904Considero esta a mais bela manifestação da Páscoa! A delicadeza destes Ovos cuidadosamente pintados e gentilmente oferecidos à pessoas queridas traduzem exatamente o sentido desta data: Renovação! Aproveitem e leiam a bela matéria sobre a Páscoa Judaica no blog de minha querida amiga Andrea, o Andrea’s cooking!


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Orlando Baumel
Orlando Baumel
Chef de Cozinha, músico e sócio do site junto com a Carol. Casado, pai de 3 lindas garotas.

0 Comentários

  1. Gilmar de Castro coelho disse:

    Bom dia!

    Anos atrás tive a oportunidade de saborear na residência de uma família ucraniana filés de sardinha feitos em conserva com cebolas em rodelas e sal. Naquela oportunidade me disseram que era uma receita muito trabalhosa. Já pesquisei na Internet e não consigo localizar nenhuma dica. Será que vocês têm a receita para me enviar? Muito obrigado.

    Gilmar

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