Fala, Fal!

Fal Azevedo.

Mais uma delícia da Fal.

Das certezas desta vida

Quase tudo que sei sobre cozinha, aprendi com minha avó materna, Dona Cida. E antes que você faça uma linda fantasia sobre a menina morena e gorducha vestindo o avental da vovozinha, vou logo avisando: nunca cozinhei com minha avó. A velha não acreditava em delegar tarefas. E não tinha uma gota de democracia em seu corpo. A cozinha era dela. Só dela. A receita era dela. O método era dela. Eu ouvia e olhava. Bem quietinha.

A velha cozinhava e falava sobre sua infância. Sobre a mãe com quem ela quase não conviveu. Falava sobre o primeiro emprego ainda menina. Orgulho de ter sido empregada. Orgulho de trabalhar. A velha cozinhava e falava sobre a comida que estava preparando. O creme de leite que não deveria talhar, a forma de pendurar a galinha com pescoço recém-cortado para o sangue escorrer, o cheiro que o fermento deve ter porque pão é coisa séria, o desossar do frango, o rechear do lombo. Como arrumar a geladeira, como fazer a lista de compras.  E qual gosto combina com qual.

Guarda, bela. Veja como se faz do jeito certo. O jeito certo era o jeito dela, claro.

Ela errava, né, ela devia errar, porque ela era humana. Mas nunca na minha frente. Eu nunca vi a velha titubear, ficar nervosa, xingar, queimar carne, perder o ponto da maionese. Nem uma vez.

Estar na cozinha da velha era estar em total segurança: ia ser uma trabalheira dos diabos, mas no final tudo ia dar certo.

Talvez porque essa tenha sido uma daquelas semanas em que todas as certezas desaparecem, assim como o chão sob meus pés, tenho sentido uma falta enorme da velha, sua cozinha de piso vermelho, mesa de fórmica verde, a geladeira branca, a nuvem de farinha de trigo que envolvia o nhoque que ia sendo cortado, os armários de metal.

Era seguro ali. Seguro como nenhum outro lugar seria. E eu, prestando atenção na quantidade de tomates para o molho e de manteiga para o glacê, não aprendi o mais importante.

É isso aí

“A luta entre o velho e o novo, o simples e o complicado é constante na história de todas as artes. A culinária não é uma exceção. Inevitavelmente o conceito do que é bom ou mau em matéria de cozinha muda através dos tempos” – A. Franco

Não adianta você reclamar.

Olha em volta.

As cadeias de fast-food são a pontinha do iceberg.

Tem coisa mais fast-food do que essas grandes redes de supermercado? Ou de roupas? Ou os bancos?

E por quê vivemos assim?

Tempo.

Bom, principalmente tempo.

Não temos tempo para ficar 40 minutos numa fila para pagar a conta de luz.

Não temos tempo para fazer o que, o meu avô, que era pedreiro, fazia. Ele saía da obra às onze e meia, ia para casa, almoçava sentado à mesa com toda a sua família, conversava, fumava, esperava minha avó passar o café, tomava café e voltava para a obra às duas da tarde. Você consegue fazer isso? Não. Nem um diretor de banco, nem o dono da empresa têm esse tempo.

Tempo.

Nenhum dos brinquedos que supostamente deveriam facilitar nossa vida e nos dar mais tempo pra brincar no sol, estão nos dando isso.

Quanto mais coisas para economizar tempo são inventadas, menos tempo a gente tem.

Nós nunca comemos tão rápido e tão mal quanto agora que temos microondas, comida congelada, comida enlatada, montes de restaurantes que entregam comida em casa e uma porção de utensílios e aparelhos que, teoricamente, deveriam poupar nosso tempo, diminuir nosso trabalho e permitir que nosso prazer à mesa se estendesse.

A realidade da maioria é enfrentar, cinco dias por semana, a fila de um “por quilo”, devorar o almoço em 15 minutos e voltar correndo para o trabalho. Tempo total gasto com o almoço, incluindo o deslocamento, a escovação de dentes e a fofoca na rádio corredor: 45 minutos.

Isso num dia de sorte, porque geralmente você usa seu horário de almoço pra terminar o relatório atrasado enquanto devora um sanduba-peba que a secretária foi buscar ou, melhor ainda, usa seu horário de almoço pra buscar as crianças na escola, deixar o menor na natação, ir ao dentista, comprar o presente de aniversário da sua sogra, fazer as unhas, comprar ração pro gato.

Passamos os últimos 30 séculos procurando jeitos de economizar tempo e estamos mais sem tempo que nunca.

Isso se reflete no tipo de pessoas e pais que somos, no trabalho que fazemos, na sociedade que construímos.

E na comida que comemos.

Não culpemos nem o Méquidônis, nem os salgadinhos, nem a Coca-Cola. Somos nós que não sentamos mais à mesa, com guardanapo no colo e garfo na mão, pra traçar um rango com começo, meio e fim.

E nas raras ocasiões que fazemos isso, transformamos a mesa em ringue de boxe, terapia em grupo, e tribunal de acusação. O momento mais tenso da minha vida sempre foi, de longe, o almoço de sábado com nosso pai. O cardápio não variava: peixe assado, salada, purê de batata e o papo inspiracional do velho, que se transformava em dor e culpa antes do peixinho sequer ter sido digerido.

E sério: quantos de nós não fazemos o mesmo?

Somos nós que entramos nos supermercados gigantes da vida pra comprar comida sem cor e sem sabor, sem saber o nome do menino que fatia o presunto ou da moça que nos atende no caixa (até porque, cada vez que vamos, somos atendidos por uma criatura diferente).

Somos nós que, pelas mais variadas razões, não encostamos mais a pança no fogão para fazer a comida que nossos entes queridos vão pôr na boca.

Somos nós. Não o Méquidônis.

A história da alimentação, para a qual nenhum historiador dá muita bola, é nossa história.

Nosso desenvolvimento enquanto primatas, nosso fazer e desfazer sem fim de civilizações passa diretamente pela nossa busca de comida.

Expressamos nossos valores sociais na comida, registramos nossos sonhos e impressões, medos e angústias, ambições e limites, modos de preparo e quantidades de ingredientes, e isso nos define, como qualquer outro tipo de literatura.

Enfim, não é a Coca-cola que faz mal.

Somos nós.

(Imagens: Andy Warhol)


Orlando Baumel

Chef de Cozinha, músico e sócio do site junto com a Carol. Casado, pai de 3 lindas garotas.

Este post tem 13 comentários

  1. Delícia, Fal. Como sempre.

  2. Ai Fal! que lindas verdades as suas.
    beijão

  3. Ô Fal, chorei… Porque eu AMO cozinhar, até mais do que comer. E amo escolher os ingredientes, tocar, sentir as texturas, ouvir os palpites do vendedor… Amo passar receita de moqueca capixaba para a velhinha francesa que esta na fila do peixe comigo. Que saudades de jogar paciência na mesa da cozinha da minha avó enquanto a pamonha de forno assava… Para mim o tempo parava ali, na cozinha cheirosa, com a risada da minha avó ouvindo minhas besteiras. Ali também era a segurança para mim.
    Beijinhos Fal, obrigada por escrever tão bonito.

  4. Maravilhoso! Concordo em tudo.
    Beijinhos
    =^.^=

  5. ahhhh Fal, aqui ainda sentamos à mesa e conversamos, e rimos, e comemos muito!!!!
    Comer com boa compania, nada, nada é melhor que isso!!
    nhoque….nem me fale….saudades das italianadas de Itu, ohhh vida!

  6. isto vai virar projeto.

  7. Fal, eu li que o brasileiro consome cada vez menos feijão.Porque precisa de tempo pra cozinhar, as vezes tem que catar…
    E , por falar em comida de supermercado, o que é achocolatado e apresuntado, você sabe ?
    Texto delicioso de ler . Quisera eu ter uma avó dessas…

  8. Amore,
    Ainda tem aquela coisa que você fala sempre, que é só o que me consola: existe uma vida melhor que essa.
    Só deixa o resto da frase pra lá, né?
    Quem sabe ela inda chega pra nós, assim?
    Beijinhos e amor,
    Sil

  9. Fal, leio todo santo dia seu blog e agora acompanho vc aqui neste site mara!
    Que texto supimpa, mulher! Aff… Me senti tão culpada comigo, com meus entes. E olha que adoro cozinhar, adoro fazer receitinhas novas, inventar. Mas a realidade é cruel. A gente não passa mais do que 10 minutos na mesa de casa(quando sentamos!) pra comer…

    Parabéns!

  10. Fal, lembrei do Armas, Germes e Aço. Somos civilizações pois queríamos comida, inventamos a agricultura para ter comida, o Estado surgiu para armazenar comida, a conquista dos outros territórios era pra termos comida…

    Eu amo você e o que você escreve.

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