Hoje no meio da tarde bateu aquela vontade de ser sequestrada para um café. Sequestro daqueles que nos arrancam dos problemas e do dia cinza e nos levam a ver o movimento naquela mesa especial, perto da janela, para olhar quem passa na calçada. Eu adoro café. Desde que é uma mudinha, até virar um bom papo. E eu adoro pessoas que gostam de café. Meu vô tinha uns dois ou três pés de café no sítio e uma das minhas mais perfumadas lembranças é da minha vó torrando café. Ela estendia uma lona no pátio da casa e duas vigas não deixavam os grãos escaparem. Depois de secos, íamos para o paiol dos fundos. Tinha dias que ela fazia isso cantando, noutros parecia um suplício. Quando somos crianças demoramos a entender as coisas. Eu ficava ali, sentada na mureta que rodeava o pé de carambola, de um lado uma begônia enorme de flores rosas muito delicadas, do outro o paiol, onde ela torrava os grãos. O calor da torra parecia secar aquele canto úmido do quintal e despejava os insetos que se escondiam no meio da lenha verde. Protestando, sapos, aranhas e formigas saiam contando suas histórias de vida e dificuldades. Naquela época eu tinha ouvidos de ouvir miudezas . Ouvia tudo, mesmo se o inseto fosse pequenininho, falasse baixinho, eu ouvia. Depois, tudo torrado, abanado, íamos para o paiol que ficava mais próximo da casa. Moer os grãos. Era o momento mais especial, porque eu podia ajudar. Porque logo ia acabar. Tão perto, o perfume, o café indo pras latas. Acho que eu queria hoje, aquele calor da torra, o perfume, aquela sensação de bater papo com insetos… 

*Essa coluna vai ficar sem fotografia até que eu tenha uma foto dessa minha vó tão querida! 

Este post tem um comentário

  1. Uma crônica literária e poética tão saborosa quanto um café dos tais que nos cativam pra vida inteira.
    Simples,sutil, e genial.
    Parabéns.

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