Juliana

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Às vezes, ela sonha com ele. Sonha que ele coloca os braços em volta dela e ela sente a pele dele e a respiração, o cheiro. É sempre um sonho de cinema, eles correm pela praia, os cabelos perfeitos, e tomam sorvete na mesma taça, e se embrulham na frente da lareira; e riem. Tudo bem, é sempre um sonho cafona de cinema. E ela sabe, enquanto sonha, que de alguma forma, eles ficam juntos. Sempre. Avisei que era cafona. Acordada, além de se lembrar do sonho, ela se espanta em constatar como é brega, mesmo dormindo, mas e daí, foi um sonho lindo. E ela acordou tão pequena, tão infeliz, que besteira, mas foi assim, ela acordou infeliz porque a vida não foi exatamente o que desejou que fosse. Um trabalho, um cão, contas a abater, problemas, telefonemas, chatices, uma vida inteira, e ela acordou de seu sonho tão real, tão quentinho, tão bom e entendeu que ama o mesmo homem há tantos anos, e que os terapeutas amadores vão todo para o diabo, se ela diz que ama, ela ama e fim de papo. Ela se levantou, fez café, ensaiou uma limpada rápida na geladeira, mas não deu tempo, e começou a trabalhar. E passou o dia todo infeliz e fungando, chorou um pouco no banheiro, mandou e-mail para a melhor amiga, que entendeu, claro, e consolou, porque papel de amiga é esse, entender e consolar, bronquinha é coisa de terapeuta e tentar resolver é coisa de mãe. De amigo a gente só quer ombro. Ela o vê de vez em quando, na tevê; ao longo da vida ele se meteu com gabinetes e seus políticos, e ela o vê em fotos nas revistas, sorrisos, inaugurações, opiniões, debates e festas. A lembrança desse amor é uma facada. Ela não quer fazer drama, não é uma sofredora profissional, ele não a quis, aliás, ela sorri com amargura, ele não a quis várias vezes e ela foi em frente, se casou, construiu uma casa – dois casamentos, duas casas, mas deixa pra lá – e frequenta muitas reuniões de terninho e cabelo preso, e vai a degustações de vinho e peças ruins, e ela ainda o ama. Tanto, tanto. Ele nunca deu nada a ela, ela nunca teve cartas de amor, nem lembranças, nem filhos, nem fotos na neve, ela nunca teve e nem terá nada dele, a não ser esses sonhos reais, com sabor, com textura, com sons, esses sonhos reais que a fazem acordar desesperada e lembrar que ela ama o mesmo, o mesmo homem há trinta e cinco anos. Às vezes, ela sonha com ele.

Carolina Figueiredo
Carolina Figueiredo

Sócia do Oba Gastronomia desde que veio aqui procurar informações sobre um restaurante da cidade e virou amiga do Orlando Baumel.
Sou mãe, webdesigner e divagante, amo boa música, bons pratos e uma boa risada.